sábado, 21 de março de 2009

Idade Média: trevas, luz, ou ambas?

Uma coisa que me irrita profundamente é o ar de superioridade que certas pessoas adotam ao dizer coisas do tipo: "que coisa mais medieval". Elas não se referem simplesmente ao período medieval, mas repetem o discurso iluminista sobre a "era das trevas". Querem com isso dizer que não houve ciência de qualquer tipo, nem inteligência, nem cultura. Bobagem! Puro preconceito. Mais um fundamento irrefletido para suas crenças.
É claro que ninguém é estúpido o suficiente para negar o que a Idade Média tem de trevas. Mas aí é que está: toda a época anterior e também a posterior possui seu bocado de luz e seu bocado de trevas. Ou vivemos hoje uma época dourada sem qualquer mal, ou ignorância, ou estupidez? Na verdade, o homem está em trevas desde a queda e apenas a Luz pode livrá-lo da escuridão. Mas isso é assunto para um outro momento!
É fácil encontrar textos que falem sobre o tema. Muitos ainda repetirão as teses iluministas, mas outros tantos mostrarão a precipitação destas teses. Há um artigo de um site católico que é muito interessante neste sentido. Além de ele mostrar certas luzes da Idade Média, apresenta também algumas trevas do Iluminismo. Deixo-o como sugestão de leitura aqui.
Certa vez, ao procurar textos sobre o assunto na internet, encontrei o texto abaixo de uma professora (suponho) portuguesa. Não procurei conferir a precisão dos dados históricos que ela cita, mas o que me interessa aqui é que concordo essencialmente com ela. Vamos ao texto (com um pouco de edição de minha parte, mas sem alterá-lo):

A Idade das Trevas
À margem do que recentemente se tem discutido por aqui, hoje resolvi escrever sobre aquela época "terrível, obscura, de medo e ignorância" que é a Idade Média. Resolvi escrever porque hoje fiquei um bocado irritada por ouvir no trabalho, numa conversa de colegas e na tv a expressão: "atitude medieval" com sentido pejorativo (atitude bárbara, atrasada, etc...).
Ora, tal está muito longe de corresponder à verdade e só revela, a meu ver, duas coisas: a grande e profícua marca que nos deixou o Renascimento e o desconhecimento geral da cultura medieval (ocidental, pelo menos). A expressão Idade das Trevas foi usada pelos homens do Renascimento que consideravam como única e com valor a cultura greco-latina. Tudo que tinha vindo depois das invasões dos povos germânicos era considerado desprezível por se afastar da fonte original, o latim e o grego, a chamada "cultura clássica". Já no século XIX, Garrett e Herculano, o movimento romântico, tentaram rebater essa ideia dizendo que a nossa cultura original era precisamente a que coincidia com a Idade Média. E vejamos então a nossa Idade Média:
  • Formação da Nacionalidade: 1128-1143, Idade Média;
  • Uso de língua autoctone em documentos oficiais: secs. XII- XIII, Idade Média;
  • Primeiras manifestações culturais em língua autóctone (cantiga de amigo, amor escárnio): século XII, Idade Média;
  • Romance arturiano: século XII, Idade Média;
  • Consciência/reflexão historico-antropológica (D. Pedro, Conde de Barcelos): Idade Média
Não entendo onde estão as trevas... Quem lê uma cantiga de Amigo ou um trecho da Demanda do Santo Graal não vê "a bárbara opressão da Igreja", vê um fino código literário-social, vê uma língua - a que falamos hoje - em construção, em nascimento. Quem lê os Livros de Linhagem vê a consciência da importância da memória na construção do poder, a importância da identidade de um grupo.
E quem vê uma catedral com uma fina rosácea e estatuetas e relevos impregnados de simbolismo, de relações com a política, a sociedade... Quem se depara nas paredes de uma Igreja com uma imagem que condiz com a ficção do romance...
O problema é que quem atira bocas ao ar e rotula a barbárie actual de "medieval", nem nunca viu, leu, reflectiu ou sequer questinou nada do que diz. São essas pessoas que colocam a bruxaria e a Inquisição na Idade Média e depois dizem, com ar contrito e entendido: Que tempos obscuros e inexplicáveis. Pena é que o auge da Inquisição portuguesa foi na época barroca e parte do iluminismo (!) na época de talha dourada que tanto ofusca o olhar que não se vê mais além do tempo. Do tempo da fundação e dos alicerces. As trevas são as de hoje pois nem se tem a humildade para reconhecer a ignorância.
Libuska
Fonte: http://alias-.blogspot.com/2005/07/idade-das-trevas.html

3 comentários:

Allan Ribeiro disse...

Bravo!

Também não suporto ouvir determinados clichês. Talvez este esteja entre os mais irritantes. A propaganda pró-Iluminismo sempre foi bastante eficaz, tanto que os luminares de hoje esquecem que este conceito de História evolutiva está morto e enterrado (e foi tarde). Então vamos esquecer essa conversa de que tal época representou um atraso na roda do tempo. Parabéns pela postagem e pela pesquisa, Roberto!

Roberto Vargas Jr. disse...

Obrigado, Allan, pelos comentários e pela fidelidade ao blog. Como já lhe disse em outro lugar, nossa amizade não depende disso. Mas é sempre bom ouvi-lo por aqui!
Sobre a postagem, pois é, arrotar conhecimento sem refletir sobre eles é repetir preconceitos. Como a professora portuguesa disse, as pessoas vivem nas trevas de seu orgulho ignorante!
Em Cristo,
Roberto

Lázaro disse...

hoje irei fazer uma prova de história, e estava procurando argumentos para contradizer que a idade média foi uma idade das trevas e com esse texto pode observar que esta não teve nada de treva, mas muita luz.